sábado, 23 de maio de 2009

A outra

Há uma outra que me olha no espelho toda manhã.
Há uma outra que decide o que eu havia jurado que não queria mais.
Há uma outra que diz sim enquanto digo não.
Há uma outra que diz adeus enquanto desejo permanência.

Há essa que tem paciência quando tudo é urgência.
Há essa que é carente enquanto a outra mente que nada sente.

Essa menina camufla a mulher.
Essa mulher tenta calar a menina.

Uma pede silêncio mas a outra canta e nada silencia.
Uma pede carinho mas a outra se sente autosuficiente.

Hoje conversei com as duas.
Ficaram assim cara a cara.
Se olhando com medo, desprezo, raiva e curiosidade.
Cada uma sustentando sua verdade.
Cada uma argumentando seu valor.
Então ambas caíram em pranto sentindo a dor.

A dor da divisão.
A dor da ilusão.
A dor da solidão.

Se entreolharam.
Se estranharam.
Então um abraço as uniu.

Compreenderam que ambas queriam amor.
Ambas queriam alegria, paz e união.
Resolveram fazer as pazes.

Entenderam que a guerra fora longa demais.
Havia cansaço no olhar.
Havia couraça em várias partes do corpo.
Havia vergonha e esconderijo.
E inúmeros segredos de histórias malditas.

As palavras então surgiram.
Não sei qual das duas começou a falar.
Então os dois corações aquietaram aquele peito.
As inimigas renderam-se.

O itinerário foi traçado.
A viagem prosseguiu.
O sorriso inaugural e a paz triunfaram.

A outra e aquela.
A moça e a mulher.
A criança e a anciã.

Todas as manhãs, quando me olho no espelho, existem várias mulheres em mim.
Todas me olham, todas dialogam, todas conquistaram seus espaços.

Sou composta pelas que se foram, pelas que são e também pelas que nascerão.
Todas estão em uma grande roda.
Todas permanecem de mãos dadas.
Todas tem voz.
Todas com seus prós.
E um único caminho.
O caminho de ser alguém melhor!


Ana Paula de Rezende






Um comentário:

...Tauico! disse...

curtí às ganha essa sua postagem... e na hora, me lembrou um dos poemas que eu acho dos mais perfeitos do Fernando Pessoa...

"Amamos sempre no que temos
O que não temos quando amamos.
O barco para, largo os remos
E, um a outro, as mãos nos damos.
A quem dou as mãos?
A Outra.

Teus beijos são de mel de boca,
São os que sempre pensei dar,
E agora a minha boca toca
A boca que eu sonhei beijar.
De quem é a boca?
Da outra.

Os remos já cairam na agua,
O barco faz o que a água quer.
Meus braços vingam minha mágoa
No abraço que enfim podem ter.
Quem abraço?
A Outra.

Bem sei, és bela, és quem desejei...
Não deixe a vida que eu deseje
Mais que o que pode ser teu beijo
O poder ser eu que te beije.
Beijo, e em quem penso?
Na Outra.

Os remos vão perdidos já,
O barco vai não sei para onde.
Que fresco o teu sorriso está,
Ah, meu amor, e o que ele esconde!
Que é do sorriso
Da Outra?

Ah, talvez mortos ambos nós,
Num outro rio sem lugar
Em outro barco outra vez sós
Possamos nós recomeçar
Que talvez sejas
A Outra.

Mas não, nem onde essa paisagem
É sob eterna luz eterna
Te acharei mais que alguém na viagem
Que amei com ansiedade terna
Por ser parecida
Com a Outra.

Ah, por ora, idos remos e rumo,
Dá-me as mãos, a boca, o teu ser.
façamos desta hora um resumo
Do que não poderemos ser.
Nesta hora, a única,
Sê a Outra."

Abrazzo do ...Tauico!