sábado, 28 de fevereiro de 2009

Metamorfose


Durante muito tempo a lagarta adormeceu em seu casulo.
Esteve em sono profundo.
Não era um sono qualquer, era um sono iniciático.
Sim!
Clausura, metamorfose e emergência.
Então, dentro daquele casulo, asas começaram a despontar...
Cores lindas surgiram...
Ali começou a ficar apertado demais, escuro demais e a lagarta se moveu, se moveu e na terceira vez o casulo se rompeu.
Aquele vento em seu corpo foi um misto de prazaer e medo.
Sentia-se vulnerável.
_ O que será de mim agora?
Não tenho mais minha proteção....
Falava para si mesma a lagarta.
Então passava ligeira e faceira uma borboleta multicolorida em seu vôo espetacular, deu voltas e parou no ar ao ouvir as palavras proferidas por aquela estranha recém-chegada.
_Proteção?
Você não precisa mais dela.
Você passou o tempo que precisava dentro do casulo.
É chegada a hora de voar!
_Voar?! Perguntava atônita a lagarta
_Claro! Voe!
_Mas eu sou apenas uma lagarta....
_Não mais. Seja bem vinda borboleta multicolorida.
Então chamou-a até um lago.
A lagarta viu extasiada através do reflexo da água que sim, era uma linda borboleta tão bonita quanto àquela que havia feito aquele vôo espetacular enquanto ela pensava ser algo tão distante de sua realidade.
Então emocionada olhou para a sua mais nova amiga:
_Obrigada!
_Não precisa me agradecer. Você simplesmente é...chegou o momento de ser como eu uma libélula.
_Obrigada sim!
Se não fosse você, eu continuaria a achar que era uma lagarta, não ousaria realizar um vôo como o seu.
E assim, ela teve a descoberta de sua metamorfose.
Quantas vezes, embora borboletas, continuamos a pensar e a agir como lagartas?
Ana Paula de Rezende Fernandes

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Integração


Tenho procurado minhas partes....
Pedaços meus que ficaram por aí.
Alguns em um passado distante, outros em passado recente...
Há partes que reciclo, muitas foram enterradas, mas como não bastou a terra...
O fogo transformou-as em pó...
Fiquei oca por um tempo...
Partes doloridas....
Pedaços arrancados....
Morte....morte....morte.
Respiração
Inalação...e de repente o ar voltou aos pulmões...
Ressuscitei!
A lágrima teimosa tranbordou!
O coração e o sangue dançavam...
E nessa música sagrada refiz meu compasso.
Hoje vejo que as partes que se foram precisavam ter ído...
Era muito peso....
Regeneração....
Pele nova....
Desci da cruz...
Andarilha...
Parti....não sei quando vou chegar...mas já sou partida e sei que também serei chegada!
E quando chegar me abraça e me completa!
Integra alma e corpo e transcende quem é humana demais....
Ana Paula de Rezende Fernandes

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Desatar os nós, libertar os pés, arrancar a máscara


Desatar os nós...


Desarrumar as gavetas alinhadas...


Virar do avesso e deixar a essência aparecer.


Quantas vezes acreditamos que somos um certo alguém e de repente olhamos nossa face no espelho e nos surpreendemos com um olhar incrivelmente diferente, um sorriso inaugural e uma sensação na alma de sermos maiores do que essas leis e esse controle imposto no passado.


Lindo e terrivelmente amedrontador...

Porque agora entendo a razão dessa ansiedade, dessa angústia:

Quanto mais solta, menos amarras possuo.

E quanto menos controle dessa persona mais a alma é redimensionada.


Pertencer a si mesma.

Simples e altamente complexo.


Sim!

Tenho medos...mas tenho o prazer de ser eu mesma.

Conhecer essa mulher, essa menina que por tanto tempo adormeceu, se escondeu e teve medo de voar.


Não tenho mais medo de voar.

Que esse vôo seja para sempre abençoado por Deus.

Que essa jornada seja cumprida.

Que eu possa suportar toda e qualquer dor necessária nessa viagem.

Que eu possa tê-lo ao meu lado.

Que seu abraço esteja presente e suas mãos também...mas nunca por necessidade...sempre pelo desejo...pelo amor...pela alegria.


Que essa risada recém-descoberta se aperfeiçoe e cresça.

Que essa sabedoria possa acontecer.

Que eu possa ter sempre as melhores decisões nunca as mais fáceis...


Que eu possa ter o tamanho verdadeiro...

Que eu caiba nos planos de meu Deus.

Que a coragem seja minha companheira.

Que eu seja para sempre melhor do que eu fui ontem.


Desatar os nós...

Libertar os pés...

Retirar a armadura, a âncora, a máscara...


Deus faça de mim à tua vontade...


Ana Paula de Rezende Fernandes

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Velha alma


Hoje a velha alma não cabe mais nesse corpo.

A pele pede para ser trocada.

Fiquei com medo de não caber mais em mim.

E de fato, isso tem acontecido dia após dia.

Li hoje uma metáfora que aquietou um pouco meu espírito.


Algo mais ou menos assim:


"Nossa vida é feita de ondas.

É impossível eternizar uma onda.

Inevitavelmente elas desaparecerão no mar, outras surgirão...mas em uma dança das águas

elas serão movimento, nascem,morrem e ressurgem transformadas..."


Hoje sou pura água.

Água da fonte.

Água do riacho.

Água que mata a sede.


A velha alma andarilha pede ao corpo que deixe-a ir.

O corpo a olha assustado.

E faz que não com a cabeça.

É invadido por um profundo temor.

Perderá o controle.

A alma sábia sorri e responde carinhosamente:

_Meu amor, não sou sua.

Apenas te peço porque quero ir sem que sintas dor, sem que sinta-se abandonado.

O corpo depois de sentir o gosto salgado das lágrimas responde:

_ Eu sei que não pertencemos um ao outro.

Sei que apenas podemos pertencer a nós mesmos.

Vá! Seja autenticidade para me fazer feliz a cada momento que me abraça e me acolhe.

Pronto !Os nós foram desfeitos.

Não serei sua prisão.

Serei para sempre sua morada.

Serei para sempre seu amor.

Amor maior.

Amor que não rima com dor.


E assim, bela e faceira, a linda alma alçou vôo e com o sorriso mais lindo que o corpo já pode presenciar foi para sempre dela mesma.

E a cada momento que esse corpo se entrega a alma o abraça e faz de sua vida amor de corpo e de alma.

Amor humano e divino.


Hoje o corpo cabe na velha alma...


Ana Paula de Rezende Fernandes