quarta-feira, 30 de junho de 2010


Sou um mistério para mim.
Multifacetada, mutante, complexa.

Queria ser mono algumas vezes, simples, com sinopses, objetiva, racional.

Mas quando penso que sou razão, ainda sim ,sou pura emoção.
Ela, a emoção, é como pão.
Sem ela fica um vão, um hiato, me sinto um bicho acuado.

Ás vezes desejo permanecer só.
Outras horas sou apenas carência e toda urgência.

Sou palavra mesmo quando silencio.
Sou áspera e sou seda.

Sou a ave que adora a brisa.
E dança ao vento.
Mas sempre volta ...
Porque ter laços é ter espaço.

É abraçar e soltar.
E voltar para novamente se alimentar...


Ana Paula Rezende

Defeitos



"Mas como fazer se não te enterneces com meus defeitos, enquanto eu amei os seus."

Clarice Lispector

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Blindada

Depois de tanta dor.
Depois de tanto alvoroço.
Depois daquele moço.
Pareço blindada.
A alma , o coração, a boca, o olhar...

Socorro!
Quem é essa?
Desconheço essa mulher.
Mas confesso que ela me protege.
Ela é guerreira.
Ela não golpeia a toa.
Mas sabe fazer doer porque é prima-irmã do caos.

Ela pensa.
Ela respira profundamente antes de decidir.
Ela não abre a guarda.
Ela acordou faz pouco tempo.
Mas já fez barulho, já pulou o muro, ela não quer amarras, ficou tanto tempo na masmorra.
Que não importa se a outra morra.

Blindada.
Ousada.
Calada.
Lunar.

Socorro!
Não me reconheço.
Mas é assim que me amanheço.
Desde aquele começo, desde aquele tropeço.

Mas ela me disse pra não temer.
Porque há tempos o destino só fez tecer essa roupa nova.

Blindada.
A prova de balas, de maldade, de desamor, de rancor, de dor.


Ela anda com passos largos e decididos.
E desfaz a menina insegura a espera dos ditos...

Ela arranca.
Ela mata a fome.
Ela sacia os desejos.
Ela  acorda os temores e os exorciza.
E diz que não precisa da dúvida, do decidir do outro.


Ela é prata.
Ela é noturna.
Mas sabe ser solar.

Ela mata e faz viver.

Somente o que a faz crescer.

Ana Paula Rezende

sábado, 5 de junho de 2010

Sonhos

Quando eu era pequena sonhava em ser bailarina.
Assistia em êxtase toda apresentação de balé clássico e me encantava com aquele movimento leve e sutil.

Mas eu estava mais para a Mônica com seu sansão em ação do que a bailarina cor-de-rosa.

Depois sonhei em ser uma jornalista e a redação me atraía de uma forma maravilhosa.

Mas meus caminhos de certa forma mudaram e eu fui ser professora e depois psicóloga.

Então deparei-me com a arte, símbolos, sonhos, cores e formas e os integrei ao meu trabalho.

Com o passar do tempo, me senti meio alquimista e todos esses sonhos e desejos de certa forma entraram no grande caldeirão.

A menina sonhadora cresceu.

Muitos sonhos foram tolos, outros arrancados, alguns anulados, muitos foram transformados, tiveram também aqueles inconfessáveis e também os suplicados.

Fui muitas vezes  fui a sacerdotisa em outras fui a esfinge.

Alguns sonhos foram solitários outros compartilhados...

Hoje, olho para trás, em tudo deve ter tido um sentido.
Ás vezes acho graça, outras vezes fico triste, é difícil desistir de sonhos ou se despedir deles.

É difícil crescer e permanecer inocente.
Quando o corpo mente pra alma.
Quando a alma engana o corpo.
Quando fazemos parcerias mentirosas.
Quando abraçamos uma causa sem propósito.

Sonhar é preciso mas viver é urgente.

Que a mulher converse com a menina.
Que a guie e a ajude a compreender pelo o que vale a pena lutar e   sonhar.


Ana Paula de Rezende

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Cura


Curar o passado é se permitir viver o presente.
Ontem percebi que ainda sangrava e que ainda doía o que achei que já estivesse superado.
Então, lembrei-me quando era pequena que minha avó materna dizia que na roça quando alguém era ferido e atingido por algum tipo de veneno era preciso fazer doer, pressionando, para que saísse tudo...
Folclore ou não....fiz isso.

Então voluntariamente deixei doer e sangrar até depurar todo veneno que pudesse ainda estar retido em mim.

Então lembrei de estar passando por um trâsnsito de plutão, sorri, embora para quem sabe o que isso significa, sorrir seria a última reação esperada.

Uma quadratura de plutão, uma regeneração tão grande e absurdamente assustadora.
Eu diria que é como nascer de novo.
Parir a si mesmo, parir a própria essência e encontrar o próprrio poder.

Pessoas e acontecimentos fazem parte desse processo.
Despedidas, novos começos, novos saberes.

Então, estudante de mim mesma.
Agradeço  e desejo tanto a sensação paradisíaca do alívio após a dor.
Aquele silêncio depois de uma guerra.
A brisa depois da devastação.

O terreno não está mais árido vejo que flores começam a germinar.
Começo a me encantar com o simples.
E hoje valorizo tanto quem está ao meu lado.
Quem permanece depois do caos.

Curar o passado e viver o presente.
Acalmar a ansiedade.
Aquietar a alma.

Deixo ir tudo que não deseja permanecer.
Deixo ir tudo que não me faz bem.
Abraço com carinho tudo que nutre a alma e faz festa na minha existência.

Ontem foi um desses dias de retiro comigo mesma.
Onde você fica quietinha e volta mais forte.

Ontem foi um dia especial porque ouvi e falei com quem se importa comigo.

Curada.
Amada.
Querida.
Desejada.

Darma....

A cura chega quando a função da dor acaba.




Ana Paula de Rezende

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Eles

Ela queria ter a certeza do amor.

E ela desejava que ele saísse correndo ao seu encontro quando , de repente,  ficasse com aquele aperto no peito.

E que ele estivesse por perto quando ela precisasse do riso escancarado para anular toda e qualquer amargura que ainda tivesse na alma.

Que ele esqueça do próprio egoísmo, de vez em quando, e a olhe o tempo que fosse preciso.

Que eles até briguem por ciúmes, ela não se importa, porque a paixão é insana.

Mas que façam as pazes muito rápido, porque a paz é sinal de amor.

E ela sabe, finalmente, que é preciso amar e ser amada.

Que eles saibam ler e entender os seus códigos.

Que ele saiba o momento de ficar e a hora exata de ir, mas que mesmo assim permaneça.

Que eles fiquem juntos inúmeras horas  e embora o tempo continue a passar a vontade cresça.

Que eles possam se traduzir mesmo no silêncio de cada encontro real.

Que eles se sintam plenos mesmo que nada de extraordinário aconteça.

Que eles se bastem na loucura e na serenidade, pois elas moram na mesma casa.

Eles são diferentes, eles são iguais, eles não desejam ser normais, eles tem paz em cada beijo e em todo abraço.

Que ela seja para ele sempre bela.
Que ele seja para ela sempre o porto seguro.

Que eles sejam amor nunca rimados com a dor.
Que  haja aceitação incondicional mas nunca acomodação.

Que o tesão rime com a paixão e desabroche no amor contínuo.

Que seja intenso e lindo.

Que ela se sinta curada e não sangre mais.
Que ele se sinta profundamente amado.

Que todo erro, cada vão, seja perdoado e calado.

Ela é louca e o provoca com a voz rouca.
Ele é bruto e a ama com a docilidade ímpar.


Ana Paula de Rezende